segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sobre o Ser e o Devir da Linguagem

Mas que Ser é esse, fugidio, que nos confunde pela escrita, pela a fala, pelo mundo, signos, coisas? Qual o Ser por traz do simples “parole”? O que significa dizer algo? Algo realmente é dito (ou seja, a linguagem é uma coisa e tem Ser próprio) ou só podemos dizer algo sobre outro algo (mera representação)? Como os falantes se entendem e se comunicam dentro de determinados contextos e de sua singularidade como seres? As questões lingüísticas, semiológicas ou semióticas confundem-se com questões talvez mais profundas que envolvem não só a origem da linguagem, mas como ela se dá fenomenicamente e, mais do que isso, que função exatamente ela cumpre na relação homem-mundo e homem-homem.

linguagem-corporal

Muitos se ocuparam dessas questões, mas não primordialmente se levarmos em conta a História da Filosofia. Husserl foi um deles e talvez pioneiro na forma como abordou o modo de existência da linguagem. Enquanto Descartes, Hume e Kant situados na Filosofia Clássica se ocupavam do problema do conhecimento pela relação entre o pensamento e as coisas, há pelo menos um século se assiste a virada lingüística colocando em pauta o problema do sentido e da significação como anteriores ao do próprio conhecimento; senão até como pressuposto de todo conhecimento possível.

Os protagonistas dessa “virada lingüística” na filosofia, dentre eles e com destaque Wittgenstein (seguindo a seu modo as problemáticas iniciadas por Frege e Russel), trouxeram a questão de que só através da linguagem e da lógica é que poderíamos fundamentar as ciências, justificando seu necessário caráter universal e objetivo. Com isso afastaram-se da idéia dominante até então de que toda ciência partiria de um Sujeito do Conhecimento. Certo é que essa contenda não acabou.

 

Wittgenstein e Husserl

Para Wittgenstein seria tarefa da filosofia a realização de uma análise da linguagem que possa revelar a sua verdadeira relação com os fatos a partir de sua forma de ser. O problema nessa análise da linguagem, a meu ver, se encontra no que nos propõe Wittgenstein como “análise de uma proposição”. Ele nos diz em seu Tractatus:

4.221 - É óbvio que, graças à análise da proposição, devemos chegar a proposições elementares que consistam de nomes numa vinculação imediata. Pergunta-se aqui como se dá o vínculo proposicional. (WITTGENSTEIN 1968, p. 82)

wittgenstein1a Mas será que a linguagem é composta apenas de vínculos proposicionais de forma a poder decompô-la, cartesianamente, em partes menores ligadas em um único sentido funcional? Nunca fui fã de proposituras que pressupusessem vínculos causais estritamente lineares. É muito cartesiano para meu gosto. Não consigo enxergar a linguagem com esse estatuto pretendido por Wittgenstein. Mas que ousadia minha!

Não que a linguagem não seja analisável. Ela não se constitui só de síntese. Há, por certo, componentes analíticos detectáveis, mas ela não se restringe só a eles. Esse é o ponto.

Talvez por influências de minhas leituras sobre complexidade, penso ser muito mais verossímil procurar entender a linguagem como um campo constitutivo que se forma no próprio devir comunicativo, embora teleonomicamente direcionado pela intenção em comunicar, do que restringi-la a uma lógica proposicional restrita e analítica. Será que um cientista só diz exatamente o que ele vê, à luz de sua teoria, ou pode e deve carregá-la de si próprio, de seu projeto político ou até mesmo de suas crenças pessoais e culturais? Ou melhor, será que é possível qualquer um destituir-se daquilo que diz e naquilo que se é? Eis que, parece-me, seja possível postular antes de qualquer coisa, até da própria linguagem, o seu campo ideal, transcendental, ou mesmo espiritual.

Haveria de se levar em conta tantas variáveis (muitas aleatórias) compondo o que se comunica, que difícil, senão impossível, seria conseguir fazer essa decomposição que nos solicita Wittgenstein. Procurar essa linearidade causal para um dizer mais seguro pode ser um bom projeto científico, mas o que se pode dizer sobre o mundo a partir disso, se reduziria substancialmente. Independente de ser um “bom projeto científico”, precisamos sair dessa idealização de possibilidade e nos encravarmos como realmente a linguagem acontece, analisando-a dentro de sua fenomenologia e não do que seria importante que ela seja dentro de nossos interesses.

Afinal o que queremos? Um dizer livre, contextual e compromissado com a verdade, mas considerando essa verdade construída no Logos desses vários dizeres sincrônicos e diacrônicos, ou uma direção estrita, segura e linear que nos reduz o mundo apenas a esse direcionamento? Que mundo queremos? Um mundo vivo, real e contraditório como ele parece, de fato, ser, ou um mundo “apenas” científico, exato, conseqüente? Não é um auto-engano querer que o mundo e a realidade se encaixem na precisão que teríamos capacidade de conseguir ou que precisamos ao invés de respeitarmos, cientificamente, o mundo como ele se apresenta? Nossa percepção de mundo tem a capacidade de captá-lo realmente como que ele é, ou precisamos esmiuçar e entender profundamente como o captamos para saber se é possível almejarmos essa neutralidade passiva de captação de sua essência?

corpos

Pensando mais, vejo que a questão até pode envolver outros aspectos. Não é o mundo que deve ser de acordo com a precisão que conseguirmos imprimir em nossa linguagem, mas é a nossa linguagem que precisa adequar-se a uma percepção cada vez mais precisa do mundo e da realidade. E precisão não é, necessariamente, redução: pode ser adquirida pela ampliação de olhares possíveis. Talvez isso recoloque a questão da importância da virada lingüística. Mais do que isso, é importante questionar e criticar profundamente o que nos faz acreditar na possibilidade de um salto em direção à proposição de que seja possível uma linguagem absolutamente neutra em termos de intencionalidade (no sentido fenomenológico do termo); ou mesmo uma linguagem passiva e meramente descritiva daquilo que o mundo nos mostra.

Chamemos, então, Husserl para esse papo. Ele postulou, antes de Wittgenstein, que a realidade da linguagem se constitui de uma realidade espiritual, de um sentido, e que é dele que decorre qualquer objetividade e/ou materialidade possível nela. Fosse uma realidade física, como toda realidade física, sua repetição a multiplicaria. Uma realidade ideal, espiritual, se constitui em um tipo, em uma síntese, e sua repetição não a multiplica. Husserl nos diz:

Podemos caracterizar esta idealidade assim, ainda: a linguagem tem a objetividade das objetividades do mundo que se chama de espiritual ou mundo da cultura e não a objetividade da simples natureza física. Enquanto formação espiritual objetiva, a linguagem tem as mesmas propriedades que as outras formações espirituais: assim distinguimos igualmente a própria gravura das milhares de reproduções desta gravura; e esta gravura, a própria imagem gravada, nós a olhamos a partir de cada reprodução e esta gravura é dada em cada reprodução da mesma maneira como um ser ideal idêntico.” (HUSSERL 1997, p. 276)

Ou seja, sendo ideal ou tendo uma idealidade constituinte, a linguagem é sintética e não pode ser reduzida a um aspecto exclusivamente analítico como Wittgenstein queria.

edmund_husserl1 Podemos, porém, até dizer que Wittgenstein se volta para a preocupação primeira da fenomenologia, pois ao postular que a referência de uma palavra ou de um nome nos remeta sempre ao mundo e não a um sentido, ele radicaliza o lema de “voltar às coisas mesmas” proposto por Husserl. No entanto penso que ele faz isso de forma Ad Hoc, pois haveria como se voltar a algo se todo algo só o é para nós inserido em um sentido que se constitui na nossa relação com ele?

Voltar às coisas mesmas, nos ensina Husserl, é nos voltarmos onde elas são constituídas diante de nossa relação com elas. Elas em si mesmas nada nos dizem e nada significam sem que se constituam dentro de um sentido para nós, sem que estejam inseridas em nossa intencionalidade. A linguagem, nesse contexto, se revelaria como um sistema que reflete esse sentido, tendo seus termos, conceitos e significados nos remetendo às coisas (como queria Wittgenstein), mas dentro de um sistema de valores hierarquizado previamente a partir de nossa práxis no mundo.

Ao contrário do projeto de Wittgenstein (que procura a linguagem a partir do fato bruto além da intencionalidade), Husserl coloca o mundo “entre parênteses” para saber como ele se constitui na sua relação com o sujeito: pela dação de sentido que constitui tanto mundo como sujeito. Wittgenstein concebe a possibilidade da ciência na busca de uma linguagem, necessariamente, além da consciência, e que se remeta à própria coisa nomeada, ao passo que Husserl concebe a possibilidade da ciência somente se levado em conta a co-constituição do mundo com o sujeito. Por fim, Wittgenstein procura e parece postular um mundo em si em que podemos nos aproximar na busca analítica da linguagem, ao passo que Husserl se preocupa com o Mundo da Vida (Die Lebenswelt), que fundamenta para qualquer um a prática teórica científica e/ou qualquer práxis possível.

 

A Intencionalidade

personalidade Sendo a consciência, para Husserl, um ato, uma relação entre um Sujeito e um Objeto e não uma coisa nela própria, ela sempre é consciência de algo. A consciência se constitui naquilo que o Sujeito percebe, imagina e especula na relação que estabelece quando voltado a algo. Considerar a consciência e sua estrutura enquanto intencionalidade é pré-requisito para compreender o projeto fenomenológico de Husserl.

Confundem e generalizam o fato de Husserl cooptar esse conceito da filosofia medieval com uma possível ligação dele com a escolástica. Nada mais enganoso e tão redutor que nem me sinto estimulado a rebater.

Segundo Coelho Junior:

O conceito de intencionalidade (do latim intentio) foi primeiramente usado em filosofia pelos escolásticos para indicar o caráter representativo do objeto imanente em relação ao objeto exterior, e, portanto, para designar a consciência como luminosa, como tendo um sentido relativamente a esse objeto.

Brentano (1973), psicólogo e filósofo, professor de Husserl e Freud em Viena, a partir do texto dos escolásticos desenvolveu a noção de intencionalidade em relação aos atos psicológicos. Ele entendia que o fenômeno mental continha como característica exclusivamente sua um objeto dentro de si mesmo e, exemplificava, afirmando que no ódio, sempre algo é odiado, no amor, amado.

A partir dessas afirmações, Husserl incluirá, como idéia fundamental em sua fenomenologia a noção de intencionalidade, ainda que com outras conotações. Husserl apresenta a intencionalidade como sendo algo inerente ao ato de conhecimento, situando-a como sendo a característica destes atos de sempre se referirem a algo, implicarem em algum objeto de conhecimento” (COELHO JUNIOR 2002)

A intencionalidade é o campo de atuação de um sujeito que se volta a algo. E não há um sujeito em si mesmo que não esteja numa relação de práxis com o mundo. Sujeito e consciência formam um único meio e relação entre um ente e o mundo. A intencionalidade é o próprio Mundo da Vida, que nos é dado como horizonte dentro de sua possibilidade prática:

O mundo nos é dado de antemão, a nós despertos, que somos sempre de algum modo sujeitos com interesse prático... [o mundo] nos é dado como campo universal de toda práxis efetiva possível, dado de antemão como horizonte.” Husserl apud in (OLIVEIRA 2008, p. 241)

A mesma relação entre conhecimento e interesse que nos desnuda Habermas[i], está na relação entre as coisas e como nós a designamos, nomeamos e a entendemos, ou seja, no próprio modo de ser da linguagem. Como dizer das coisas algo objetivo dentro do que elas são em si mesmas, se nossa relação com elas se dá dentro desse horizonte de práxis pelo qual o mundo se constitui para nós? Eis a intencionalidade, o Mundo da Vida.

 

A Fenomenologia da Linguagem de Merleau-Ponty

Em seu projeto de desconstruir a dicotomia clássica entre sujeito e objeto, reencontrando o SER numa Ontologia bruta e selvagem, Merleau-Ponty redescobre a intencionalidade e seu poder de significação levando em conta tanto a linguagem quanto a fala como ato criativo. Antes, ele situa seu projeto a partir do esquecimento clássico de um sujeito falante na tradição filosófica:

A tomada da consciência da fala enquanto região original é naturalmente tardia. (...) A posse da linguagem é compreendida em primeiro lugar como a simples existência efetiva de ‘imagens verbais’, quer dizer, de traços deixados em nós pelas palavras pronunciadas ou ouvidas. (...) a concepção da linguagem coincide em que não há um ‘sujeito falante’.” (MERLEAU-PONTY, Fenomenologia da Percepção, Cap. VI - Corpo como Expressão e a Fala, p. 237)

merleau-ponty1 Com isso ele postula, desde o início de seus escritos sobre linguagem, que a problematização da linguagem não foi uma preocupação da Ontologia Tradicional (ou da Metafísica – Filosofia Primeira); fato que teria dado liberdade à Husserl abordar essa problemática com muito mais liberdade do que fez com os problemas da percepção e do conhecimento[ii]. Ao situar a preocupação da linguagem a partir dessa ausência de tematização desde a metafísica tradicional, Merleau-Ponty analisa como Husserl, nas diversas fases de seu pensamento, abordou o fenômeno da linguagem.

Numa primeira fase, segundo Merleau-Ponty, Husserl teria abordado a linguagem em sua origem como constituição de uma consciência soberana, estruturando o mundo a partir de sentidos que determinavam as nomeações das coisas e, a partir disso, toda linguagem atual se situando como casos particulares dessa forma essencial de ser. Numa fase mais tardia, porém, a linguagem apareceria como um modo sui generis de visar certos objetos (intencionalidade), como se fosse o corpo do pensamento e, destarte, ela se torna um fenômeno intersubjetivo de existência ideal e presente. Segundo Merleau-Ponty:

A partir de então, o pensamento filosófico que reflete sobre a linguagem torna-se seu herdeiro [de Husserl], envolvido e situado nela.” (MERLEAU-PONTY, Sobre a Fenomenologia da Linguagem, p. 130)

Merleau-Ponty traz ao encalço dessa fase tardia de Husserl os estudos lingüísticos e fenomenológicos de Hendrik Josephus Pos (1898-1955)[iii].

Analisando o fenômeno da linguagem, Merleau-Ponty divide seu texto em dois itens:

1 – A língua e a palavra (parole);

2 – Quase corporeidade do significante.

Fiquemos, por enquanto, apenas nesses dois. Logo em seguida Merleau-Ponty analisaria a relação entre significante e significado, texto que irei dedicar a um futuro ensaio.

 

A Língua e a Palavra

A análise começa com a seguinte interrogação:

Podemos simplesmente justapor as duas perspectivas da linguagem que acabamos de distinguir?” (ibidem, p. 130)

Essas duas perspectivas são distinguidas a partir das duas fases de Husserl já comentadas, separando-as como: linguagem como objeto de pensamento e a linguagem como sendo minha (idem). Para a linguagem “como sendo minha”, Merleau-Ponty traz as considerações de Hendrik Pos em sua obra Fenomenologia da Lingüística (1939), onde a define como retorno ao Sujeito Falante, coincidindo com a fase tardia husserliana.

HendrikPOS No entanto, assim como Pos, é chamado Saussure em sua distinção entre uma lingüística sincrônica da palavra e uma lingüística diacrônica da língua, já que Pos também se limita a descrever alternadamente tanto a atitude objetiva do estudo lingüístico quanto a atitude fenomenológica sincrônica da língua. Não há, segundo Merleau-Ponty, um pronunciamento, em ambos os autores, do relacionamento entre essas perspectivas.

Merleau-Ponty postula que há uma dialética entre a dimensão diacrônica e sincrônica da linguagem e que uma influencia na outra, dizendo:

Por mais que Saussure mantenha a dualidade das perspectivas, seus sucessores são obrigados a conceber um princípio mediador, como, por exemplo, o ‘esquema sub-lingüístico’ (Gustave Guillaume)” (ibidem, p.131)

Merleau-Ponty postula essa necessidade de mediação a partir de dois pontos básicos:

1 – A sincronia envolve a diacronia:

A série de fatos lingüísticos fortuitos, postos em evidência pela perspectiva objetiva, incorporou-se numa linguagem que, a cada momento, era um sistema dotado de lógica interna. Se, pois, a linguagem é sistema quando considerada um corte transversal, também é preciso que ela o seja em seu desenvolvimento.”

2 – A diacronia envolve a sincronia:

Se a linguagem comporta acasos, quando considerada segundo um corte longitudinal, é preciso que o sistema da sincronia comporte a cada momento fendas onde o acontecimento bruto possa vir inserir-se.”

Esse mediador, o corpo como expressão, está no cerne de todo pensamento de Merleau-Ponty e podemos afirmá-lo a partir do ótimo trabalho de Furlan & Bocchi para a revista Estudos de Psicologia da USP:

Em seu pensamento, o reconhecimento da linguagem como um modo original de sentido é ocasião para a dissolução da dicotomia sujeito-objeto presente nas concepções supracitadas. A linguagem não é tradução ou reprodução do pensamento e, neste sentido, uma potência de caráter secundário. Ao contrário, ela é fonte originária de sentido do próprio pensamento.” (FURLAN e BOCCHI 2003, p. 446)

saussure A linguagem se constitui como prolongamento do sentido dado pela abertura da percepção, embora também o limite quando encerrada numa sistemática sincrônica. A dialética entre a sincronia e a diacronia se dá pela constante abertura da percepção ao mundo a partir do sujeito, desse eterno ir e vir de dação de sentidos intersubjetivos, criando pontos diacrônicos dentro de um sentido maior ampliado e limitado pela linguagem.

Para encontrar essa mediação no corpo e sua expressão como abertura na própria percepção, Merleau-Ponty se impõe uma dupla tarefa:

a) Encontrar um sentido no devir da linguagem, concebendo-o como um “equilíbrio em movimento”.

b) Compreender que o sistema sincrônico que se realiza como corte transversal da diacronia não se realiza nela em ato, mas comporta mudanças latentes ou “em incubação” sem que sua constituição se dê por significações unívocas.

Ou seja, desfaz-se assim a idéia de uma linearidade cumulativa e complexificadora na linguagem que a torne irredutível ou mesmo tendendo a um sentido único. A linguagem, tomada por essa mediação que nos propõe Merleau-Ponty assemelha-se em muito à própria vida e suas determinações evolutivas como a concebia Charles Darwin (e essa aproximação daria uma bela análise).

Onde estiver essa mediação ou essa possibilidade de universalização da linguagem estará um sistema dinâmico e complexo que não tem um sentido único, nem tampouco é caos, mas um equilíbrio pontuado no próprio fazer: em seu devir. Muito mais do que por uma significação, o que dá consistência e universalidade a esse sistema é o valor de emprego dos termos como um “conjunto de gestos lingüísticos convergentes” (MERLEAU-PONTY 1980, p. 132).

 

Quase corporeidade do significante

Merleau-Ponty volta-se, então, à língua falada, viva, ao “parole” a partir de um Sujeito Falante. O que é dito não constitui seu valor expressivo pela mera soma dos valores expressivos individuais dentro de uma “cadeia verbal”. Nesse ponto, volta-se a uma posição contrária de Wittgenstein:

Enfim, se ela [a língua] quer dizer e diz alguma coisa, não é porque cada signo veicule uma significação que lhe pertenceria, mas porque todos juntos aludem a uma significação, sempre em sursis se considerados um a um, e rumo à qual eu os ultrapasso sem que nunca a contenham.” (idem)

boca Ou seja, em sursis significa que isolados os signos podem até representar uma significação aos moldes de Wittgenstein, mas juntos ultrapassam-na e não a contém. É perfeita a analogia que faz com um formulário em branco que ainda não preenchemos, assim com gestos de alguém visando representar um objeto que não vemos, mas que precisamos preencher com nossas referências para entender: constituímos intersubjetivamente a mensagem.

A impressão psíquica de um som expressa em um signo lingüístico quase que possui uma corporeidade que nos solicita a integrá-la e a torná-la objetiva na intersubjetividade do diálogo, nunca antes e nunca depois. O significante é quase corpóreo.

 

Reflexões

Parece que toda problemática que envolve alguma determinação do SER da Linguagem, seja para determiná-lo como um Ser em Si ou como puro Devir em equilíbrio pontuado, centra-se na interrogação de como falantes particulares interpretam uns aos outros em determinados contextos de comunicação.

Medina coloca em termos de tradições filosóficas, chamando Charles Taylor (1985) e sua identificação entre uma tradição semântica designativa e uma tradição semântica expressiva. (MEDINA 2007, p. 49)

Na tradição designativa dois movimentos filosóficos serviram-na como pano de fundo: o naturalismo e o nominalismo, ainda segundo Taylor citado por Medina. Tratado como um fenômeno natural que pudesse ser explicada empiricamente, a linguagem na tradição designativa naturalista está no cerne de crítica pontyana:

(...) o autor [Merleau-Ponty] coloca que não haveria um signo natural no homem e, neste sentido, não é possível reduzir suas aquisições à ordem de uma natureza humana. Para ele, de certo modo, é irrelevante a distinção entre o que é natural e o que é construído, uma vez que todas as condutas estão fundamentadas em um ser biológico, mas, ao mesmo tempo, não se definem exclusivamente pelas estruturas anatômicas e fisiológicas que o habitam. Com relação a essa questão, o autor observa o fato de que sentimentos agrupados pelo mesmo nome são vivenciados de maneira distinta e até mesmo contrastante por pessoas de culturas diferentes.” (FURLAN e BOCCHI 2003, p. 448)

Nessa crítica reside a mesma desconstrução que Herder fez a Condillac, quando este último teria dado como pressuposto uma relação unívoca de significação a partir da fábula em que duas crianças inventariam uma linguagem própria se perdidas no deserto (MEDINA 2007, p. 52).

A dimensão expressiva da linguagem, como veiculo e ampliação de uma consciência reflexiva, no entanto, precisa também levar em conta que, sincronicamente, a linguagem estabelecida constrói o sistema em que essa própria consciência se constitui, como nos relata Merleau-Ponty.

O corpo e a percepção como amálgama de nossa expressividade no mundo se dá dentro de uma diferença fundamental entre os seres vivos. A consciência sendo relação e não uma coisa em si, não é unidade redutora de um Ser unívoco nem para a experiência perceptiva do corpo, nem para a linguagem como extensão dessa experiência:

Não basta que dois sujeitos conscientes tenham os mesmos órgãos e o mesmo sistema nervoso para que em ambos as mesmas emoções se representem pelos mesmos signos. O que importa é a maneira pela qual eles fazem uso de seu corpo, é a ‘enformação’ simultânea de seu corpo e de seu mundo na emoção. O equipamento psicofisiológico deixa aberta múltiplas possibilidades e aqui não há mais, como no domínio dos instintos, uma natureza humana dada de uma vez por todas. O uso que um homem fará de seu corpo é transcendente em relação a esse corpo enquanto ser simplesmente biológico.” (MERLEAU-PONTY, Fenomenologia da Percepção, p. 256-257)

E Merleau-Ponty vai mais além:

Mesmo aqueles sentimentos que, como a paternidade, parecem inscritos no corpo humano são, na realidade, instituições.” (ibidem, p. 257)[iv]

Se, como nos solicita Merleau-Ponty, a linguagem e a fala indicam uma relação construída contextualmente e intersubjetivamente, como poderíamos deixar de considerar a relação de poder na constituição diacrônica e sincrônica da linguagem? Como deixar, por exemplo, de desconsiderar a nossa linguagem como expressão do domínio masculino submetendo, controlando e dominando o não-homem como outro?

No Capítulo II de As Palavras e as Coisas, quando fala do ser da linguagem, Foucault faz a arqueologia das disposições dos signos no mundo ocidental, onde teríamos passado de uma configuração ternária para uma binária na idade moderna. Sob a pergunta de como um signo pode estar ligado ao que ele representa, Foucault nos sentencia:

“(...) a idade clássica responderá pela análise da representação (...), o pensamento moderno responderá pela análise do sentido e da significação. (...) A profunda interdependência da linguagem e do mundo se acha desfeita.” (FOUCAULT 1999, p. 59)

Michel_Foucault Quando Merleau-Ponty postula a sedimentação que está na relação de significante e significado (a partir do item III de sua Fenomenologia da Linguagem), comparando a palavra a um gesto do corpo que tem um alvo visado por ele, essa profunda interdependência que nos cobra Foucault parece-me ser refeita. O gesto e a fala comungam da mesma natureza diacrônica que rompe o Ser Fixo para um Ser de puro Devir constituindo o mundo e sendo constituído por ele intersubjetivamente.

Foucault não concorda exatamente com isso. Para ele a história (leia-se jogos de poder e as epistemes) funda o corpo e nossa percepção, ao passo que para Merleau-Ponty o corpo é a abertura do homem para a construção de sua historicidade e na dialética de todo discurso possível (SILVEIRA 2007, p. 80). Entre um corpo enredado, constituindo-se na própria constituição que faz do mundo, e um corpo germinado por um mundo que o determina, a tese central de Merleau-Ponty parece prevalecer em minha opinião. Ao menos no sentido de que a linguagem se constitua como extensão perceptiva de um corpo encarnado, obedecendo a seu modus operandis perceptivo, expressivo e co-constitutivo da realidade.

Eis o ser da linguagem: o devir da própria constituição do Sujeito. Futuramente pretendo falar sobre a relação entre significante e significado a partir de Merleau-Ponty.

 

Notas Explicativas

[i] (HABERMAS 1982, p. 218) nos diz:

Os interesses orientadores do conhecimento deixam-se avaliar unicamente pelos problemas objetivos da conservação da vida, os quais receberam resposta através da forma cultural de existência.

Dentro do escopo desse ensaio, essa frase significa a orientação da linguagem para o campo prático da existência humana, direcionando a designação e nomeação não para o objeto dentro de um significado independente, mas dentro de uma visão sistêmica humana de dação de sentido para o mundo.

[ii] (MERLEAU-PONTY, Sobre a Fenomenologia da Linguagem, p. 129)

[iii] Não encontrei muita coisa sobre Hendrik Pos, mas o que encontrei dá conta que ele estudou com Husserl em Friburgo e Rickert em Heidelberg. Dedicou seus estudos à fenomenologia e se destacou como lingüista e estudioso da linguagem. Na ocupação nazista, por suas posições comunistas, passou 5 anos em campos de concentração. Em 1950 se vincula à Sociedade Européia de Cultura de Umberto Campagnolo. É professor de Filosofia desde 1932 na Universidade de Amsterdã e membro da Real Academia de Artes e Ciências da Holanda. Possui vários artigos sobre Filosofia da Linguagem, Filosofia e um livro sobre antisemitismo de 1938.

(fonte: http://www.filosofia.org/bol/bib/nb055.htm)

Segundo o trabalho de Patrizia Morgarano, Hendrik Pos é um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento da Fenomenologia nos Países Baixos, tendo convidado Husserl, em 1928, para ministrar importantes conferências na Holanda e desenvolvido um esforço para oferecer uma alternativa filosófica entre o neo-kantismo e o neo-tomismo que dominava o cenário europeu da época. (MANGARANO 2004, p. 12)

[iv] Para a corroboração dessa frase, Merleau-Ponty recorre a uma nora na página 637, ilustrando com o exemplo dos indígenas da ilhas Trobrian, cuja paternidade não é reconhecida e a autoridade sob as crianças é exercida pelo tio materno.

 

Bibliografia

Coelho Junior, N. (2002). Consciência, intencionalidade e intercorporeidade Paidéia (Ribeirão Preto), 12 (22), 97-101 DOI: 10.1590/S0103-863X2002000100010

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 8ª Edição. Tradução: Salma Tannus Muchail. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999.

Furlan, R., & Bocchi, J. (2003). O corpo como expressão e linguagem em Merleau-Ponty Estudos de Psicologia (Natal), 8 (3), 445-450 DOI: 10.1590/S1413-294X2003000300011

HABERMAS, Jürgen. Conhecimento e Interesse. Tradução: José N. Heck. Rio de Janeiro, RJ: Zahar Editores, 1982.

HUSSERL, Edmund. “Idealidade da Linguagem.” In: Os Filósofos Através dos Textos, por Grupo de Professores, pp. 275-277. São Paulo, SP: Paullus, 1997.

MANGARANO, Patrizia (2004). Desenvolvimento da Fenomenologia nos Países Baixos Memorandum, 7, 8-17 Other: ISSN 1676-1669

MEDINA, José. Linguagem: conceitos-chave em filosofia. Porto Alegre, RS: Artmed, 2007.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução: Carlos Alberto Ribeiro de Souza. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2006.

MERLEAU-PONTY, Maurice. “Sobre a Fenomenologia da Linguagem.” In: Textos Selecionados - MERLEAU-PONTY (Os Pensadores), por Marilena de Souza Chauí (seleção dos Textos), tradução: Marilena de Souza Chauí, pp. 129-140. São Paulo, SP: Abril Cultural, 1980.

OLIVEIRA, Nyhamar de. Husserl. Vol. II, em Os Filósofos: clássicos da filosofia, por Rossano Pegoraro (org.), pp. 231-253. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

SILVEIRA, Fernando de Almeida (2007). Corpos enredados – germinados: a questão do corpo em Foucault e Merleau-Ponty Memorandum, 13, 73-87 Other: ISSN 1676-1669

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Tradução: José Arthur Giannotti. São Paulo, SP: Universidade de São Paulo, 1968.

5 comentários:

Daniel Alabarce disse...

Ah este Wittgenstein! Me deu um trabaaaaaaalho do cão! Aquel Tratactus... É o Maurício escrevendo lógica, só pode! kkkk

Saudade pagarai! seu mequetrefe!

abração!

Angelillo disse...

Olá Miranda!!
Vou digerindo o teu articulo en pequenhas doses... Eu penso que a critica que fazes a o Wittgenstein nao é muito justa, enquanto que nao mencionas as Investigaciones Filosóficas: nesse livro o autor abandona esas tesis de uma linguagem tao rigido y vinculante a o analisis logico, e isso é o que tu propones:

"Talvez por influências de minhas leituras sobre complexidade, penso ser muito mais verossímil procurar entender a linguagem como um campo constitutivo que se forma no próprio devir comunicativo, embora teleonomicamente direcionado pela intenção em comunicar, do que restringi-la a uma lógica proposicional restrita e analítica".

Isso mesmo é o que o Wittgenstein defende com a sua teoria dos jogos da linguagem: A linguagem da ciencia nao é mais que uno possivel nessa teleonomia constructiva o dinámica pragmatica das pessoas que construyen e practicam o linguagem. As lendas contam que W. descubriu isto nas conversas com meninhos, na sua epoca a trabalhar numa escola.

Disculpa do meu portugues...
Sempre aprendo muito dos teus articulos, Miranda (filosofia e também a vossa lingua, é tao gira).

R. disse...

" Certo é que essa contenda não acabou."
E é, provavelmente, uma contenda sem fim. Linguagem e pensamento, linguagem e socialização, linguagem e fenomenologia, linguagem e idiossincrasia... Fascinantes e inesgotáveis contendas , popularmente bem traduzidas na velha dicotomia da galinha e o ovo :)

Ubiratan Rabelo disse...

Olá achei o seu Blog muito interativo e com ótimas informações, ficaria muito grato se pudéssemos trocar informações como seguidores.

Acesse: worldnovus.blogspot.com
Obrigado

rapsodo disse...

Brilhante o contexto do tema e esta , digamos que, apreensão de um momento desta reflexão como um fator de historicidade muito bem fundamentado. Gostaria de acrescentar algo a mais sobre Husserl, ou seja, acerca da intersubjetividade ;
"Cada cientista não se sente ligado a todos os outros apenas pela unidade de um objeto ou de uma tarefa. Sua própria subjetividade de cientista é constituída pela idéia ou horizonte desta subjetividade total que se torna responsável, nele e através dele, de cada um de seus atos de cientista." Introdução a obra Origem da geometria, escrita por Derrida. O que gostaria de apontar seria que este horizonte parece ser ainda algo amparado naquilo em que é apontado como um dos aspectos do cerne da metafísica, ou seja, a noção de uma presença constituída ou ainda uma verdade com ststus de originalidade.
Seria possível respondermos a questão que Husserl colocou-se a si próprio, ou seja " “Como se passa de um estado individual ante-predicativo originário à existência de um ser geométrico em sua objetividade ideal?" isto lidando-se com o geométrico que pode ser colocado em condições análogas aos da linguagem. Seria esta intersubjetividade possível mesmo como uma relação não empírica entre egos, mesmo se supondo que se assim sendo, faz-se necessária que ela libere-se de todo vínculo a modificações empírico -factuais? como caminhar por entre isto que se nos apresenta?

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